quarta-feira, 16 de outubro de 2013

D. ISAURA, TRONCAS E A "MENINA DE VINIL"...

Naquele rés-do-chão da Rua do Ouro, nº. 171, bem ao fundo de um estreito corredor feito com uma divisória de madeira encimada por vidro fosco, estava a D. Isaura, telefonista da "minha empresa", apenas minha porque lá trabalhava.
 
Era obrigatório agradar-se à D. Isaura, dona do PBX instalado junto à Administração, pois uma conversa telefónica mais íntima poderia comprometer o nosso futuro. Um dos truques era fazer festas ao tico-tico, seu gato de estimação, que andava por ali.

Hoje, a D. Isaura seria "técnica especialista" ou "gestora de circuitos" com troca de cavilhas e serviços afins...tal a eficiência com que cumpria as missões confiadas... 

 
Um dos painéis habituais dos PBX
 
Os poucos telefones, para as chefias e uso comum, não tinham teclas, pelo que o levantar do auscultador (ou rodar uma pequena manivela) era como que uma piscadela no PBX, caindo como que uma pálpebra que identificava a extensão.
 
Pelo PBX, com recurso à telefonista, passavam as ligações internas e externas.
 
As ligações externas (e casas que tinham telefone) eram através dos serviços da APT (Anglo Portuguese Telephone): "Troncas...para onde deseja ligar"? Pedia-se, por exemplo, "o 115 de Albergaria" ou "António Caramelo, em Cinfães". "Aguarde"...
 
Na maior parte das vezes, desligava e só depois era feita a ligação pretendida.
 
Muitas vezes, mais nas residências, as Senhoras da APT já conheciam os Assinantes, o que levava ao relacionamento quase institucional entre as partes.

Elas diziam e contavam quantas moedas caíam nas cabines, mas davam umas borlas se as chamadas se perdiam e o dinheiro tinha sido introduzido.
 
Muitas dessas milhares de profissionais ainda serão vivas, pelo que daqui envio uma singela homenagem de apreço pela forma atenta como nos ouviam e nos falavam. Estavam atentas e partilhavam a vida com os Assinantes.
 
A menina de vinil dos nossos dias

Pessoa amiga, de há dezenas de anos, viu-se de súbito com uma grave doença, de doloroso tratamento, pelo que procurei falar-lhe para lhe dar alento, saber pormenores, no fundo afastá-la durante um ou dois minutos das dores.

Acabando de ligar, logo uma voz feminina (porque não usam a masculina?) disse: "Não é possível estabelecer a ligação. Tente mais tarde" e desligou. Voltei a ligar e a mesma voz, repetindo a mensagem, sem apelo nem agravo. Desumanamente.

Fiquei a meditar no sucedido. Não podia falar com o vinil. Havia uma voz, nem fria nem quente, sem sexo, sem alma, sem sentido de vida. Não estava nas "Troncas", talvez num paraíso fiscal ou satélite a rodar em SP, sem bites nem bytes. Horrível.

Aquele malvado vinil, culpado do envio para casa de  milhares de mulheres válidas que trabalhavam nas Centrais - e quantas conheci na da Trindade - permitiu aumentar o lucro das empresas, sacrificando a vida e a felicidade de seres humanos.

Abaixo a "menina de vinil", que nem os bons dias me dá...e depois admiramo-nos da vida numa sociedade triturante, com fins e sem princípios.

Boa tarde para as pessoas de bem.


  
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

SINTRA: BASÍLIO HORTA, NOVO CICLO NOS GASTOS PÚBLICOS?

Com a tomada de posse prevista para 23 deste mês, os novos Autarcas - Assembleia e Câmara Municipal - que irão tomar nas sua mãos a gestão deste nosso imenso território sintrense não terão tarefas fáceis.

Agora, seria irrelevante o árduo trabalho de estudar os 59,58% de abstenções, ou se ganharam os brancos ou os nulos, já que não devemos esquecer os milhares de sintrenses sem trabalho que abalaram pelo mundo fora.

Por outro lado, seria estultice abordar ou tentar confundir e misturar a opção de "Independente" do Presidente eleito, legitimamente incluído numa lista Partidária, situação que frequentemente se verifica em Coligações e forças Partidárias.
 
Dinheiros públicos e sua aplicação

Causa estranheza que, ao longo da crise, o Governo Central tome medidas restritivas sobre gastos (muitas vezes ofensivas), mas ao nível autárquico essa preocupação ande à solta, por vezes ajudando na captação de votos...com incidência nos passivos.

Não admirará que o Dr. Basílio Horta procure saber, prioritariamente, da situação financeira do município de Sintra, seu Passivo Exigível e encargos assumidos para os próximos anos, já que serão os munícipes a ter de os pagar.

Ao mesmo tempo, ao que se admite, outra das medidas rigorosas a tomar prender-se-à com a nomeação de assessores, sempre e devidamente justificadas por funções que não possam ser desempenhadas por técnicos camarários qualificados.

Aliás, em nome da transparência e conhecimento público, seria do mais alto interesse a divulgação de quanto custaram - nos últimos quatro anos - os assessores nomeados e quais as funções que inequivocamente desempenharam.

Dívidas camarárias e de empresas municipais

No site da CMS - que deveria ser objectivamente esclarecedor - notam-se omissões relevantes, nomeadamente em "Dívidas a Fornecedores". As últimas informações da Câmara reportam-se a 31.12.2012 e da EDUCA e HPEM a 30 de Junho de 2011...

Nessas datas, Câmara apresentava as dívidas a ZERO (entre 90 e mais de 360 dias) sem indicar as inferiores a 90 dias. Por seu turno, na EDUCA e na HPEM - entre 60 e >360 dias - as dívidas ascendiam a 6.648.310 € e 8.267.820 €, respectivamente.

Projectos de desenvolvimento estratégico

Em campanha, o candidato Basílio Horta manifestou sempre as maiores preocupações com o desemprego e necessidade da criação de mais postos de trabalho, pela influência na vida das populações e ambiente social.

Tudo indica que as prioridades da gestão do Presidente eleito se destinarão ao incentivo a novas empresas em Sintra, geradoras de mais riqueza, entre elas "industrias limpas" e vocacionadas para o turismo, com efeito na economia local.

As limitações financeiras que se julgam existir, não permitirão largos voos nas despesas ou em compromissos não prioritários, pesem pontuais casos de interesse ou pressões que, naturalmente, possam surgir, aliás como muitas vezes sucede.

Não será de excluir que, quase de supetão, lhe sejam colocados sobre a mesa as mais variadas "urgências", decisões sobre "prestigiantes" propostas para Sintra, quantas delas merecedoras de reanálise cuidadosa e definição de prioridades.

Os primeiros serão os mais difíceis tempos da governação - facilmente superáveis - antes de se retomar o normal funcionamento da pesada máquina municipal.

Aparentemente é uma vantagem para o nosso futuro colectivo que o Dr. Basílio Horta não tenha surgido em Sintra para consolidar a sua carreira política, aliás suficientemente conhecida, facto que o tornará, por certo, muito mais "Independente".

Esperam-se, por isso, por parte do Presidente eleito, as maiores cautelas na aplicação dos dinheiros públicos, gerindo cuidadosamente as "fantasias" onerosas que lhe sejam apresentadas sob os mais variados títulos.

Tudo indica que os próximos tempos tragam uma grande clarificação sobre até onde podem ir as despesas que prioritariamente sirvam os interesses mais amplos das populações. E só essas...

Em tese, será do maior interesse que os munícipes conheçam, logo que possível, a situação financeira da sua Autarquia, para compreenderem o exigível planeamento de todos os actos de gestão do território.


 

domingo, 6 de outubro de 2013

LISBOA: CONHECÊ-LA, DE CALÇÕES, ENTRE 1953 E 1956...

Naquela época, não havia psicólogos para apoiar as crianças que, filhos da Grande Guerra, começavam a trabalhar para ajudar a família a sobreviver.

Lembro-o para que na história se inscrevam os trabalhadores de calções, que depois de uma vida árdua e trabalho hoje estão sendo espoliados das sua pensões.

Primeira desilusão aos 14 anos. Sem posses, deixei o Liceu para trabalhar (estudaria à noite). Um anúncio, pedindo "Rapaz para paquete", criou-me o "sonho de viajar pelo mar", rapidamente desfeito ao saber que a função era mais para recados...

Nessa tenra idade, em que pouco conhecia de Lisboa a não ser do caminho para o Liceu de Camões ou uma espreitadela às miúdas do Filipa (a polícia vedava aproximações...) comecei a percorrer Lisboa de lés-a-lés, quase sempre a pé.

Se calhava ir para Alfama, não podia perder o Chafariz de Dentro, ou a Rua de S. João da Praça, a Rua do Terreiro do Trigo e as docas, com fragatas, mesmo em frente.

Tinha um prazer imenso em passar pelo Beco do Carneiro e olhar os dois prédios que, na altura, se encostavam e imaginava os vizinhos a passarem coisas de uma janela para outra, bastando esticar os braços. Agora estão mais afastados.

Beco do Carneiro como está hoje. As obras afastaram os telhados

Às vezes, tinha a companhia do Florindo, linotipista no Bairro Alto, que apanhava o comboio em Santa Apolónia. Entrava numa tasca na Rua do Terreiro do Trigo e pedia: "Dois pastéis de bacalhau e um de dois branco...também vais no branco"?
 
Ao refazer estes caminhos, sinto como que uma solitária homenagem àquele amigo, na casa dos 50 anos, apaixonado pela cidade de Lisboa, sempre com um livro na mão para ler "nos tempos livres" ou no comboio a caminho dos Olivais, onde morava.
  
Quem imaginará imagens destas dentro da cidade de Lisboa?
 
Há dias, nesta zona e junto ao Beco da Lapa, descobri esta frondosa bananeira que, um residente, me garantiu dar boas bananas. Uma estranha imagem de Lisboa. 
 
Regressava pela Rua da Alfândega ou por Santa Clara, até à estação do Rossio, de onde partiam os comboios para Sintra e Azambuja, mais os Expressos Lusitânia e julgo que o Sud Expresso, estes últimos puxados por máquinas potentíssimas.  
 
Outras histórias ficarão para um dia...talvez próximo.
 
 
 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

LISBOA: DE CANTOS, (RE)CANTOS E PATRIOTAS...

Nos meus percursos solitários por Lisboa, sou tantas vezes surpreendido por encantos que me deslumbram, fazendo desejos de que - muitas vezes - tudo seja recuperado para bem da riqueza patrimonial lisboeta e da nossa história.

Porque há dias aqui lembrei a Fonte do Poeta que existe no Largo da Judiaria, não poderia esquecer as belas e antigas janelas que na sua frente se nos mostram.
 
 
 
Caminhando mas um pouco, na Direcção do Chafariz de Dentro, por uma rua estreitinha chegamos ao Largo das Alcaçarias, onde um calmo gatito nos olha enquanto apreciamos dois painéis de azulejos antigos e fortemente agredidos.
 

 
Hoje, recordarei a história que eu próprio observei. 
 
Neste Largo das Alcaçarias, na esquina onde se entra pela Travessa do Terreiro do Trigo (voltaremos a falar do Terreiro do Trigo), existia uma fonte.
 
Era conhecida por Fonte das Ratas.
 
Por volta de 1959, constou que a água de tal fonte (certamente a mesma dos banhos) era milagrosa e, espalhada a boa nova através dos Diário de Notícias, Século , Diário Popular e Diário de Lisboa, a população a ela acorreu para encher garrafões.
 
Era um pandemónio. A polícia tinha de manter a ordem, milhares de pessoas de Lisboa e arredores, com vários garrafões, esperavam horas a fio para conseguir levar para casa o precioso líquido, poupando até na compra de outras águas ou bilhas.
 
Nessa altura, já os grandes empresários tinham o poder de influenciar e dar ordens ao governo, pelo que uma grande marca vendedora de águas reclamou invocando a qualidade da que brotava da fonte...claro porque estava a perder clientes.
 
Solícitos, governantes de então ou a câmara municipal (tudo da mesma gente) proibiram a recolha de agua no local com fundamentos de "defesa" da saúde pública. Como mesmo assim continuasse a recolha, um dia a fonte foi destruída e soterrada.
 
A Fonte das Ratas acabou, arrasada, para que os pobres não a utilizassem.
 
Pelo que julgo saber, como ao lado havia a zona de banhos, a edificação ainda hoje existe.
 
Aproveitando andar por lá, bastando atravessar a Rua, podemos deliciar-nos com a frontaria do Edifício das Alfândegas, encimado por uma gravação histórica, que reflecte a época em que o nosso país era governado por patriotas preocupados com o seu povo:
 
 

"JOSÉPH: I, AUGUSTO INVICTO PIO
REY E PAY CLEMENTISSIMO
DOS SEUS VASSALLOS
PARA SEGURAR A ABUNDANCIA DE PAÓ
AOS MORADORES DA SUA NOBRE E LEAL CIDADE DE LISBOA
E DESTERRAR DELA A IMPIEDADE DOS MONOPOLIOS
DEBAIXO DA INSPECÇAÓ DO SENADO DA CAMARA
SENDO PRESIDENTE DELLE PAULO DE CARVALHO DE MENDONÇA
MANDOU EDIFICAR DESDE OS FUNDAMENTOS ESTE CELLEIRO PÚBLICO
 
ANNO  M DCCLXVI"
 
 
Esta a nossa história de hoje...feita ontem...para amanhã.