segunda-feira, 21 de abril de 2014

SINTRA: QUINTA DAS PALMEIRAS, a história mais completa

Ao Sr. Jorge Gomes, da 1ª. Conservatória do Registo Predial de Sintra,
À Sra. D. Elvira Fonseca, da Sintriana, Biblioteca Municipal de Sintra
Agradeço a paciência com que me ajudaram nas pesquisas

A “Quinta das Palmeiras” - assim consta da Escritura feita no Notário Privativo da Câmara Municipal de Sintra - foi adquirida no dia 6 de Junho de 1972 por 1.000.000$00 (hoje 5.000 €), sendo Presidente o Sr. José António Pereira Forjaz. Tão baixo valor terá sido influenciado pelo mau estado da propriedade.

A Inscrição a favor da Câmara só seria feita em 2 de Dezembro de 1974.


A Biblioteca Municipal de Sintra
O primeiro proprietário

A propriedade não foi inicialmente Inscrita na “Conservatória do Concelho de Cintra”, talvez por estar inacabada. Só em 12 de Agosto de 1869, por força de uma “inscripção hypothecaria” a favor da “firma Social Krus & Companhia” se verifica o primeiro Registosem indicação expressa do proprietário.

Confrontava "por todos os lados com propriedade do Conde Claranges Lucotte". 

“Uma propriedade de casas que foram destelhadas e que se acham em bastante ruína. E situada em um terreno denominado Villa Nova Estephania, Freguesia de Santa Maria do Arrabalde”. “Calcula-se o valor venal deste prédio em cem mil réis e nenhum o seu rendimento por se achar abandonado”.

Tudo indica que o Conde Claranges Lucotte foi o primeiro dono da propriedade, considerando que em "9 d'Abril de 1872" a mesma foi Inscrita a favor da firma Krus & Companhia "por arrematação judicial" "numa execução" movida contra o referido "Conde Clarange Lucotte, morador em Lisbôa".

Tratemos, agora, de estimar o início da construção.

O Conde Claranges Lucotte, pessoa muito ligada à construção, era proprietário da empresa francesa que construiu a ponte pênsil de D. Maria II, no Porto, inaugurada no dia 17 de Fevereiro de 1843.

Em 1854 propunha-se construir a linha férrea Lisboa/Sintra, por Algés, Caxias e Agualva-Cacém, o que foi aprovado por Lei de 1855. Dificuldades financeiras levaram-no a vender a concessão em 1859.

Agravando a situação, em 17 de Março de 1861 o governo rescindiu a concessão aprovada e que previa dois Ramais de Sintra a Cascais e a Colares. A linha férrea seria feita para Cascais.

As dificuldades financeiras sentidas em 1859 podem ter levado o Conde a suspender as obras da sua propriedade na Villa Nova Estephania, daí o estado de “bastante ruína” registado em 1869, a que se seguiu a “execução” . Assim, o início da construção pode ter sido antes da crise: - entre 1855 e 1858.


Paisagem deslumbrante
Proprietários que se  seguiram

No dia 21 de Junho de 1875 foi celebrada nova Inscrição definitiva, agora a favor de D. Josefa Luiza Guelfe Freire, Viúva, “moradora na cidade de Lisboa”, que a “adquirira por compra”.

Outro proprietário surgiria, desta feita Rodrigo Peixoto, morador em Lisboa, sendo em 16 de Abril de 1920 "inscripta" a seu favor a transmissão de uma parte de prédios, arrematada na “hasta pública” da “execução fiscal que a Fazenda Nacional moveu contra (…) herdeiros do Barão D’Almeida Santos”.

Em 13 de Março de 1937, o Sr. Rodrigo Peixoto, procedeu à actualização das confrontações, em virtude do prédio ter sido aumentado com outro terreno. Nova transmissão estava em curso.

Em 6 de Abril de 1937, foi "Inscrita a favor de Maria Amélia Belard Mantero, Viúva”, moradora em Lisboa, a “transmissão do prédio” que comprou ao Sr. Rodrigo Peixoto.

Chegamos a 1972. Em 6 de Abril é averbado: "O prédio (…) consta de casa de cave, r/c, 1º. Andar e águas furtadas, ocupando a área de 220 m2, dependência com 270 m2 e logradouros com 15.200 m2”.

Nesse mesmo dia, por "Partilha", a propriedade foi Inscrita a favor de Julieta Maria Gardé e Mello Mantero, Amélia Mantero Belard Casalis e Laura Mantero Belard de Mendonça Alves, todas Viúvas. A primeira, nora, as outras duas senhoras filhas de D. Maria Amélia Belard Mantero, falecida em 1952.

Regressemos à História

Em dezenas de documentos consultados, não se encontraram alusões a “Casa Mantero”, frequentemente associada à Biblioteca Municipal de Sintra. Tampouco se viram disposições ou desejo expresso aquando da venda à Câmara Municipal de Sintra. Apenas há "Quinta das Palmeiras".

O nome Mantero surge em 1937, pela Viúva de D. Francisco Mantero (falecido em 1928, no Lumiar).

Acresce que o Casal Mantero viveu entre 1897 e 1927 na Quinta dos Lilases, ao Lumiar (tendo em 1899 comprado a parte rústica da Quinta das Conchas, que lhe era anexa).

É dessa época que surge a "lenda das casas assombradas", numa história bem longe de Sintra.

Tomando como princípio o cruzamento de dados, pode dizer-se que não se confirmou a alusão feita a D. Francisco Mantero como tendo mandado "construir nos finais do Século XIX, uma casa no bairro sintrense que então despontava", "Localizada na vulgarmente apelidada “Correnteza”".

"Casa Mantero", porquê?

A menos que existe alguma razão pouco conhecida, não há motivos fortes que justifiquem a associação de "Casa Mantero" ao nome da Biblioteca Municipal de Sintra. Uma questão de nome? Poderia ter sido "Lucotte", "Freire" ou "Peixoto", todos eles antigos proprietários.

Uma coisa é certa: - É pouco consistente afirmar-se (Sintra, capital do romantismo) que D. Francisco Mantero tenha estado ligado à construção da casa nos finais do Século XIX.

Justifica-se, sim, que o mérito de se associar um nome ao da Biblioteca, contemple uma personalidade prestigiada e com influência Cultural em Sintra, nomeadamente Francisco Costa, Major General Rogério Machado de Sousa ou José Alfredo da Costa Azevedo.

Até que um nome ligado a Sintra e à sua Cultura lhe seja associado, será sempre e tão só,

BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SINTRA.





8 comentários:

Ricardo Duarte disse...

Caro Fernando Castelo,

Excelente contributo para a história do Bairro da Estefânea.

Parabéns!

joao dias disse...

mil contos em 1972 não é a mesma coisa que 5000 euros hoje

joao dias disse...

Se em1972 por partilha foi feita nova inscrição, nao pode ter sido so as 3 senhoras porque havia mais filhos de D. Amelia

Fernando Castelo disse...

Caro João Dias, muito grato pela sua observação, mas que gostaria de esclarecer. Do texto, houve a preocupação de não dizer que 1.000.000$ seria o mesmo que 5000 euros. Apenas e entre parêntesis, se deu a equivalência para melhor avaliação por parte dos leitores. Cumprimentos

Fernando Castelo disse...

Caro João Dias, mais uma vez muito grato pela atenção que este assunto lhe mereceu e ainda bem, porque é essa a intenção quando se estabelecem laços de relacionamento.
Evidentemente que, à data da partilha, um filho de D. Maria Amélia Belard Mantero (Enrique Mantero) era vivo, viúvo de D. Gertrudes Eduarda Verdades de Faria.
No entanto, sugiro que consulte as Escrituras de Habilitação de 12 de Janeiro de 1953, a Folha 68 do Livro nº. C-389; a exarada a Folha 21v do Livro C-390; e a 12 de Outubro de 1960, lavrada Folha 1 do Libro B279, todas do 9º. Cartório Notarial de Lisboa; mais a Escritura de 7 de Janeiro de 1972, exarada a Folha 66v do Livro F42, do 19º Cartório Notarial de Lisboa.
Renovo os meus cumprimentos

joao dias disse...

Bom dia
Sim, mas dizer 1000 contos hoje 5000 euros, é estranho, porqque 5000 euros nao compra uma propriedade daquele genero , mesmo em mau estado de conservaçao, peço desculpa pela minha observaçao.
Além de Enrique tambem havia Carlos, que conheci pessoalmente e com quem tive ocasiao de conviver nos ultimos 10 anos de vida e recordo-me do tema da Quinta vs Camara Municipal.
Bom trabalho o seu.

Fernando Castelo disse...

Estimado João Dias,
Já agora, depois deste último comentário que também agradeço, trago alguns dados que me serviram para comparação.
1-A aquisição por 1000 contos, digamos assim, afigura-se-me como que um "brinde", porque só o terreno valeria muitas vezes mais. Isto para dizer que, nesse época da compra, o meu salário mensal era de 7.500$00, e com 15 processamentos. Ou seja, ganhava 90.000$ por ano. Ora, 1.000 contos correspondia a 11 anos do meu trabalho, o que era uma ninharia.
2-Tem razão, o Carlos Mantero Belard, casado com D. Carolina Maria Zea y Ataolarruchi, só viria a falecer em 1980.
3-De qualquer forma, a privacidade da família levou-me a não procurar a história mais completa de Enrique Mantero Belard e seu testamento para dar o nome da esposa - Verdades de Faria - ao Museu da Música Portuguesa em Cascais, sabendo-se que não tiveram filhos.
O meu trabalho virou-se mais para o nome depois associado à Biblioteca Municipal de Sintra, já que as donas venderam a propriedade com o nome de Quinta das Palmeiras.
Aliás, para satisfazer a sua curiosidade - o que faço com todo o gosto - a Quinta das Palmeiras era muito referida na vida sintrense em 1929, quando o seu dono - Rodrigo Peixoto - era uma figura relevante, com alto cargo nas Finanças. Ao que sei, foi a morte de um filho do Sr. Peixoto na Volta do Duche que o levou a vender a propriedade.
Os meus cumprimentos,

joao dias disse...

obrigado, vejo que esta bem documentado, fico feliz por saber que há gente que embora nos tenha deixado, continua presente na memoria dos q ainda ca estao.
bem haja