domingo, 27 de outubro de 2013

"PELES DE COELHO"..."TRAPOS...E...GARRAFAS"...

Coelho em bronze numa via pública - Jackson
 
Um coelho, bem tratado, luzidio e a descansar, fez-me recordar a infância, quando as famílias dos trabalhadores  eram obrigadas, pelo regime e políticos da época, aos maiores sacrifícios e procurar mais qualquer coisa para o sustento.
 
Recorda-se, porque actuais e futuras gerações devem sabê-lo.
 
De tempos...a muitos tempos, por luxo ou festa familiar, lá se comia um coelho, aproveitando-se a pelo do bichinho após o abate. Aproveitavam-na o comprador ou o criador particular. Nos meios rurais e até em zonas urbanas.
 
Com canas finas, cruzadas em armação ao estilo do que era feito para os papagaios de papel, a pele do coelho era esticada, devidamente salpicada com sal e dependurada ao ar e ao sol até ficar seca, pronta a curtir...e a render uns tostões.
 
Nas ruas ou campos, passavam compradores que gritavam: "Peles de coelho" ou "Quem tem peles de coelho que queira vender?" Nas transacções, a cotação de uma pele podia ir dos 50 centavos até 15 tostões, conforme a qualidade e tamanho.
 
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Da mesma forma, andavam comerciantes com carroças que compravam outras coisas. As pessoas guardavam nas suas casas roupas que já não serviam para recuperação familiar, pois as calças iam de pais para filhos e depois não serviam.
 
As garrafas (sempre de vidro) era guardadas em casa para posterior venda.
 
Vinham os compradores: "Quem tem trapos e garrafas que queira vender?". Lá se recebiam mais uns tostões, que davam para comprar 15 tostões de manteiga (tirada com uma colher de pau de um recipiente com água e sal) ou meio litro de feijão (era ao litro que se comprava...)...minimamente roubado com a passagem da rasoura.
 
 
São algumas recordações dos anos 40 e 50, no após guerra, tempos que sempre julguei não voltariam ao meu país. Ao meu desconfortado país, onde os mesmos ideólogos dos regimes que deram origem à Segunda Grande Guerra estão no poder.
 
Coelhos luzidios descansam repimpadamente à custa dos sacrifícios de milhões de trabalhadores e reformados.
 
Depois, um dia, admirar-se-ão se andar por aí quem lhes queira tratar da pele.
 
 
 
 
 
 

3 comentários:

Carlos José dos Santos disse...

Cá em Sintra (na Vila, onde nasci e me criei), não perguntávam pelas peles de coelho, mas os trapos e garrafas, tinham procura.
Hoje certamente, a pele do "Coelho" gordo e anafado, era coisa que seria ostentada como um troféu, e quem a tivesse era condecorado, e teria milhares de adeptos, embora o valor pecuniário de tal "objecto" fosse apenas simbolico, porque é coisa que de facto não vale nada, nem sequer a quarta de manteiga do nosso tempo.

António disse...

É verdade sim senhor, quem não se lembra em Sintra do Marques "ferro velho" morador na Quinta da Maquia, ou do João de Lourel, que fez fortuna com este negócio, trazendo penduradas na sua carroça várias peles dos ditos coelhos. Actualmente compramos os animais já sem pele, mas que ostentam ainda o rabo para identificação, isto porque hoje, devido à má qualidade dos ditos, é muito difícil alguém se aventurar a tirar a pele aos manhosos dos coelhos.

Fernando Castelo disse...

É verdade caro Carlos, como foi possível que a sociedade tenha sido invertida até este ponto. Obrigado pela sua achega e boa noite.